Tumba de 4 mil anos revela 'porta falsa' entre vivos e mortos no Egito
Sítio fica em Saqqara e pertenceu a um alto funcionário do Império Antigo egípcio
12 de setembro de 2026 às 14:42

Arqueólogos descobriram no Egito uma tumba de aproximadamente 4 mil anos, pertencente a um importante funcionário do Império Antigo. Entre os achados está uma "porta falsa", estrutura sem passagem física, mas com relevante função religiosa para os antigos egípcios.
A tumba de Sekhentiu-Ptah foi localizada em Saqqara, antiga necrópole de Mênfis, ao sul do Cairo. A descoberta foi anunciada pelo Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito após escavações realizadas na região do Bubasteion.
Segundo as autoridades egípcias, o trabalho arqueológico envolveu escavação estratigráfica, documentação arquitetônica e fotográfica, digitalização dos objetos encontrados e estudo das inscrições.
A "porta falsa" é elemento recorrente na arquitetura funerária do Egito Antigo. Apesar da aparência de uma passagem, ela não dava acesso a outro ambiente. A estrutura era considerada um ponto de contato entre o mundo dos vivos e o além, por onde o espírito do morto poderia transitar simbolicamente.
Diante da porta, os arqueólogos encontraram objetos associados a rituais funerários: uma mesa de oferendas, uma peça ligada a sacrifícios, uma bacia de purificação, um jarro e uma esteira. Todos apresentavam inscrições hieroglíficas.
A tumba havia sido violada em algum momento de sua história. Ainda assim, a escavação revelou três sarcófagos de pedra que permaneceram lacrados desde a Antiguidade, uma escultura de madeira em forma de falcão e grande quantidade de cartonagem funerária colorida.
As inscrições encontradas ajudaram os pesquisadores a identificar Sekhentiu-Ptah e a conhecer parte de sua trajetória na administração egípcia. Segundo o Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito, ele ocupou cargos como camareiro real, supervisor das obras do rei, supervisor dos documentos reais, sacerdote da deusa Maat e chefe dos escribas. Um dos títulos atribuídos a ele era o de "guardião dos segredos dos decretos reais".
A egiptóloga Ann Macy Roth, da Universidade de Nova York, que não participou da escavação, disse ao Live Science que a expressão provavelmente indicava uma função administrativa. Segundo ela, o título era usado por escribas ligados à corte e provavelmente se referia ao acesso a documentos e informações confidenciais.
Sekhentiu-Ptah viveu durante o Império Antigo, período marcado pela construção das grandes pirâmides egípcias. Pelas características arquitetônicas da tumba, Roth estima que ela tenha sido construída no fim da 5ª dinastia ou no início da 6ª, há aproximadamente 4.350 anos.
Apesar da riqueza dos achados, os arqueólogos ainda não localizaram a múmia de Sekhentiu-Ptah. Uma possibilidade é que a tumba tenha sido reutilizada depois do sepultamento original, prática comum no Egito Antigo. Essa hipótese também pode explicar a presença de objetos que aparentemente pertenciam a outras pessoas.
Entre os materiais encontrados estão mais de 100 ushabtis de faiança, pequenas estatuetas colocadas nas tumbas para acompanhar o falecido e, segundo as crenças da época, ajudá-lo na vida após a morte. Também foram identificados poços funerários com restos humanos.
A descoberta reforça a importância arqueológica de Saqqara, uma das principais necrópoles do Egito Antigo e reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco. O local teve papel central durante o Império Antigo, entre aproximadamente 2700 e 2200 a.C., quando recebeu sepultamentos de membros da realeza e da elite. A utilização funerária da região continuou por séculos, chegando ao período romano.